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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

03
Jun15

O conto de não-retorno

Maria das Palavras

Respirou fundo. Tinha aquela sensação no peito que não se explica. Como se alguém lhe sugasse o ar e o sangue e lhe travasse e acelerasse o tambor do coração a seu gosto. 
As caixas amontoadas ao canto. Nem se podia dizer que estivesse tudo fora do sítio porque ainda não tinham um onde pertencer. Esse seria o trabalho dela naqueles dias que se seguiam à mudança. Definir sítios para as suas coisas. Já que não encontrava um sítio onde coubesse ela.

 

Mentira. Cabia no colo dele. Era essa a sua casa. Mas o colo dele ja não lhe pertencia.
A sensação que lhe esvaziava o peito não tinha a ver com a desorganização geral - não desta vez. Era um latejar da traição que lhe ardia no corpo há mais de uma semana.

Tinha sido logo no primeiro encontro que lhe havia anunciado que jamais perdoaria uma traição. Tinha visto a sua mãe fingir que não chorava vezes demais. Nunca o toleraria na sua própria vida. Avisou-o. Não haveria retorno.


Começou por desencaixotar os livros, já que a mobília estava no sítio e não suportava ver estantes vazias. Abriu sem querer o exemplar d'O Velho e o Mar que ele lhe tinha oferecido e leu a dedicatória. Ele juntava sempre uma dedicatória aos livros que oferecia. 


Que tenhamos a mesma perseverança do velho, para que contra todas as marés revoltas e à boleia de todos os bons ventos, sejamos felizes para sempre. Sem espinhas.


Quando se conheceram, num esforço para impressionar aquele homem lindo por quem todas as suas colegas suspiravam, disse-lhe que sim, claro! Conhecia Hemingway. E coincidentemente o livro favorito dela era o mesmo dele: O Velho e o Mar. Era mentira, como ele provou em três tiradas. Ela desconhecia a história do velho pescador que se lançava todos os dias ao mar, muitos dias seguidos, sem resultados. Que um dia pescou o maior peixe jamais visto, mas teve de lutar para o puxar para o barco, depois contra tubarões para o manter...que chegou a terra sem nada senão a espinha gigante. Que ainda assim foi cumprimentado pelos da terra. Não pela conquista, que já nada sobrava. Mas pela perseverança.


Teria ela de ter perseverança? Lutar contra a catástrofe que se colou ao seu casamento? Haveria lugar para o perdão?
Fechou o livro e arremessou-o contra o canto da sala. 

Ele tinha querido perdoá-la. Foi ela que não se perdoou.

 

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