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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

21
Out15

Zulmira AKA Deus

Maria das Palavras

Eu sei que devia trincar a língua por dizer isto, que são os transportes públicos que têm que melhorar e os idosos precisam de ter mobilidade na cidade, mas caramba, quem mal se aguenta de pé, também devia saber que não pode tentar a sua sorte na Carris.

 

Old Womas (Imagem Pixabay)

Uma senhora de idade entra no autocarro e dirige-se a um lugar vago. Nisto, o motorista arranca (porque não pode esperar até Novembro) e ela quase vai de boca ao chão. Uma mulher solícita (vamos chamar-lhe Zulmira) que ia a passar ouve os gritos estridentes da velhota ("AGARRE-ME QUE EU VOU PARTIR O BRAÇOOO, AI, AI, AI, AI") segurou-a e ajudou-a a sentar-se no banco, direitinha e bem segura. Não saiu de perto dela enquanto não estava instalada.

A senhora sentou-se e começou num pranto. Ai que já ia partindo o braço outra vez. E que o motorista era um animal. Que nunca ninguém a ia calar. E que foi Deus que a salvou. Foi Deus, foi Deus, chorava ela em lágrimas secas tão fiteiras que eu sentia a fita a dois metros que estava dela. Um grito pela atenção que precisa, juro que percebo, mas quanto mais ela falava e disparava em todas as direções, mais eu perdia a pena. Foi Deus, Deus não me abandona, continuava ela. 

Foi Deus? Ora porra, foi a Zulmira, que eu bem vi.
Só que a senhora, no meio de tanto berro, lágrima de crocodilo e protesto (entretanto já berrava contra os políticos) só se esqueceu de berrar um "obrigada" à Zulmira. Logo uma senhora tão apoquentada com a falta de educação do motorista.

 

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22
Dez14

Sozinho em Casa

Maria das Palavras

Este ano o filho não pode vir. Por causa do trabalho, como disse ao telefone já há um par de semanas, da última vez que lhe ligou para saber como estava de saúde. Ajeitou novamente o lume, com os cepos que lhe restavam da última volta que deu no pinhal ao pé de casa. Estava muito frio para voltar lá agora. E o filho do Cristovão que às vezes trazia lenha também para ele, já não visitava os pais também fazia uns meses - as viagens à terra estão cada vez mais caras. 
A televisão estava desligada. O Natal dos Hospitais já não tinha ninguém que conhecesse e também já não tinha a sua Lucinda ao lado a dar-lhe cotoveladas para reparar no vestido desta e daquela cantora. Há tempo demais que ninguém lhe dava uma cotovelada. 
Quase podia ouvir ainda a chaleira a chiar e ela ainda tão novinha a perguntar ao pai se também aceitava uma chávena. O sr.Aníbal da drogaria mandara-o entregar uns cartuchos para a caça lá em casa do Doutor. O Doutor recebeu-o com um sorriso e chamou a Lucinda, a filha, para fazer um chá ao rapaz, que era ele. E ele viu-a e soube com a certeza dos loucos: havia de casar com ela. Havia de passar com ela o resto dos seus dias - cotoveladas e tudo. Não fosse a vida ter-lhe pregado a rasteira de a levar tão cedo, cedo demais. Quase sentia o aroma do chá de limão, que ela lhe preparava sempre.

- Sr.José, o seu chá está pronto.

A senhora da bata azul passou pela porta e interrompeu-lhe os pensamentos. Pousou o chá na mesinha ao lado dele. Que estava aquela jovem ali a fazer?
Às vezes baralhava-se. Perdia a noção por um segundo. A "jovem" era uma senhora nos seus avançados cinquentas, que trabalhava para a associação local. O filho pagava a mensalidade que lhe dava direito às refeições, às limpezas, enfim, aos cuidados que podem ser os estranhos a dar.

- Deixei-lhe tudo pronto e acrescentei umas rabanadas ao menu do costume. Não se esqueça que amanhã não passa cá ninguém. Se precisar de alguma coisa tem o nosso número ao pé do telefone. Boas festas.

Ligou a televisão sem ele pedir. E pregou-lhe um beijo na testa antes de sair. O atrevimento! A Lucinda haveria de lhe contar das boas, se pudesse ver aquilo. 
Olhou pela janela e viu a moça a afastar-se. Ao longe casas iluminadas, mais do que o costume. Lembrou-se. Era Natal. Contava oitenta e três Natais. E, sozinho em casa, pedia a Deus que não tivesse de contar mais nenhum.

 

Imagem Internet

 

Fala-se em Sozinho em Casa no Natal e todos temos a imagem do Macaulay Culkin e dos bandidos trapalhões na cabeça. E esquecemo-nos de desejar que fosse esse o único "sozinho em casa" associado a esta quadra. O único filme muito visto. Partilhem. Pode ser que toque a consciência de alguém que possa fazer a diferença.

 

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