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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

10
Jun16

Não tenho saudades.

Maria das Palavras

Maria das Palavras | Blog

 

Estive longe de casa por um tempo e enquanto lá estive ocupei-me e não pensei no que tinha deixado cá. Não penso na falta que me faz coisa alguma. Sei que volto em breve e concentro-me em aproveitar o que está comigo e não o que fica para trás. Não penso que preciso dos braços do Moço para me embalarem, porque quero só dormir depressa e o tempo passa, que eu sei, e logo chego outra vez. Como quando estou longe dos meus pais, muitos dias a fio de cada vez, desde que vim para Lisboa há tantos anos, e sei sempre [ingénua] que estão lá para me receber - porquê mastigar saudades? Como daquela vez em que fui passar três semanas a Paris, com amigos, e achava tonto que me perguntassem se tinha saudades de casa, do meu país, e eu - que sabia que tinha a sorte de voltar em menos tempo que os 31 riscos que se fazem do calendário - não percebia por que raio haveriam de querer que estivesse melancólica. Não tenho saudades à partida.

 

E é só quando chego - ao Moço, ou ao pé da família, ou ao meu sofá, ou ao Tejo - que tenho saudades. Que quero os abraços do Moço todos aos mesmo tempo sem largar, que me apercebo que não comia a sopinha da minha mamã há tanto tempo, que não terminei as frases ao mesmo tempo que a minha irmã durante tantos dias. Que o Sol de Lisboa não é o mesmo que brilha nos outros sítios. Ou que o castelo de Leiria é (seja ou não) o mais bonito do mundo. Não tenho saudades à partida. Tenho saudades à chegada. Regressei a casa há uma semana e ainda não passaram. 

 

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06
Set15

Palavras dos outros #12

Maria das Palavras

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.

Mas o que mais dói é saudade.

 

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.

 

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

 

Saudade é não saber.

Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

 

Saudade é não saber.

Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

 

Saudade é não querer saber.

Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.


[A definição mais bonita de saudade que já li, da brasileira Martha Medeiros, em Paixão Crônica. E - espantem-se - quem ma deu a conhecer foi a Sara Carbonero no seu blog, mas atribuindo o discurso a Miguel Falabella. Parece que muitos cometem esse erro.]

 

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30
Dez14

O Ano para mim não passa

Maria das Palavras

Até vinha a calhar que passasse. Que eu acreditasse que do 31 para o dia a seguir, algures entre o champanhe e as passas (e eu que não gosto de nenhum!), há um filtro, um coador de café, mas grande - para a vida. O grão ficava preso em 2014 e só passava o que há de mais fino e suave - os sonhos e os sorrisos que não se apalpam mas se sentem.

O ano novo não traz nada de bom - pelo menos nada que nós não possamos trazer a cada dia do ano, sem ajuda do calendário e fogo de artifício à volta do mundo, ao bater de cada hora, em cada lugar.

As coisas boas, como as coisas más, não trazem data marcada e não sabem quando vestir lantejoulas para a festa.

Há dez anos atrás, quando o meu avô morreu de 31 para o dia a seguir, o ano não passou. E desde aí que os anos não passam na contagem decrescente de um minuto de Dezembro para outro em Janeiro. Passam nesse ou noutro dia qualquer quando a minha história muda para melhor. Conto que o ano passe algures em 2015, para mim e para os meus: que o calendário vire, dia circundado a vermelho vivo numa semana qualquer. Mesmo que não seja na noite em que o mundo todo o quer celebrar. Mesmo que seja em todos os dias menos neste.

 

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