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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

30
Abr18

Antes só que bem acompanhado.

Maria das Palavras

Digam-me se é só comigo que isto se passa. Ter horas ou dias que não partilho com mais ninguém é tão essencial quanto estar rodeada de amigos e família, ou estar com o meu favorito das horas todas que é o Moço. 

 

A solidão forçada é um mal que faz doer, mas não conseguir momento feitos só de nós mesmos, para nada em particular, só para sermos sem mais ninguém, é igualmente penoso. É nesses momentos que refletimos ou, por outro lado, deixamos completamente de refletir, porque não há ninguém a considerar. O que melhor nos aprouver nesse momento da nossa vida em particular. Dançar de cuecas, babar na almofada, ou fazer as mesmas coisas de todos os dias, mas só conosco. 

 

Seja qual for a explicação, preciso disso como de água para beber. E da mesma maneira que me esqueço da segunda, às vezes também me esqueço da primeira.

 

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09
Set16

Só ou sozinha?

Maria das Palavras

Estou sozinha porque me apetece.

Estou sozinha porque hoje preciso de um bocado para mim.

Estou sozinha porque prefiro.

Estou sozinha porque quero.

Estou sozinha porque estou pacientemente à espera de alguém.

 

Estou só porque não espero ninguém.

Estou só porque não vejo quem possa chamar para ao pé de mim.

Estou só porque a pessoa que quero ao pé de mim não pode vir.

Estou só porque não há quem me compreenda. Mesmo quando estou ao teu lado. Ou no meio da multidão.

 

[Estar só é infinitamente pior do que estar sozinha. Mas se soubermos que há mais quem se sinta assim: estamos todos acompanhados.]

 

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21
Mai16

Caixa de Rascunhos #3

Maria das Palavras

Estou no parque e tenho livros e pombos por companhia. Só penso como é bom estar sozinha. E - céus - como seria infinitamente melhor estar acompanhada. É que sem querer desdizer os livros que trouxe (e até já li) ou os pombos que se passeiam com vagar (que por uma vez até estão no sítio certo), nenhum deles me pergunta porque é que eu vim sozinha para aqui. Nem é a conversa que me faz falta. Que eu palavras só para mim tenho muitas. É o cuidado que nenhum deles tem comigo. Tenho saudades tuas.

 

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03
Ago15

Mas cinco e faz um ano

Maria das Palavras

Ia tão carregada, a dor de cabeça a pingar-me na cabeça (plim plim plim), que me sentei nos lugares reservados a grávidas e deficientes (não havia nenhum à vista). Na paragem a seguir vem a senhora com um casaco de inverno muito quente, logo hoje que o calor nos serve de gola alta, e senta-se ao meu lado. Estamos as duas de costas para a estrada, mas eu vou com tudo em cima e mais um livro onde repouso a vista - não a concentração. Então é para a vizinha da frente que a velhota fala:


Vai chover que eu sei. Veja essas nuvens. E eu sinto-me tonta, sei bem que o tempo vai mudar. O Verão já vai a meio sabe? [sem resposta] Estamos em Julho. Sete meses do ano já passaram. Faltam cinco. Foram sete, faltam cinco e estamos em Dezembro. Mais um pouco e estamos na passagem de ano. Mais um ano. Acho muito mal agora o que fazem as pessoas que morrem. Que as queimam, sabe? [sem resposta] Um enterro já é uma coisa má, mas queimar as pessoas? Eu não quero. Acho horrível, mas é o que se faz agora. Mas pronto, mesmo quem é enterrado ao fim de cinco anos é levado do cemitério. Cinco anos, não é? [sem resposta] E passou Julho. Passaram sete meses. Mais cinco e faz outro ano. Vou sair aqui. Bom dia. [sem resposta]


Quem a ouvisse percebia que, de facto, já estamos a mais de metade do ano, que o tempo talvez vá mudar, que a senhora não quer ser cremada, mas no fundo não acha boa nenhuma das opções para a morte. Quem a ouvisse bem, do lado de dentro das palavras, percebia que ela se sente muito sozinha, que anda a fazer as contas à vida há muito tempo, na esperança de virar mais um, mas que há-de querer, quando o ano não virar outra vez, alguém que lhe leve flores durante muito tempo.


Eu levantei os olhos do livro e olhei para ela: bom dia.

 

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28
Jul15

À Janela

Maria das Palavras

Pixabay free images | Public Domain - Janela / Window

  

Ali estava ela, na janela do 5ºB, a olhar para o mundo que se estendia à sua frente a partir de Lisboa. Que pequena que era. Que sozinha que estava. 
Toda a gente tinha alguém. Estavam de férias com as caras-metades ou aquele grupo de amigos inseparável. Toda a gente tinha um programa mais interessante do que estar à janela naquele domingo ameno. Só ela é que não.

Então tinha tempo para maldizer a sua vida cinzenta. Mesmo que em todos os dias da semana,a todos os que se cruzassem com ela, mostrasse uma montra colorida, em forma de sorriso. O "como estás" responde-se automaticamente com "bem", o "está tudo bem" responde-se automaticamente com "sim". E de resposta correta (mas incompleta) em resposta correta (mas incompleta) se constrói uma fachada pintada de fresco em cima de paredes de cimento áspero. 

Não é que não fosse genericamente feliz, que não tivesse amigos do peito, uma família quente de ternura. Mas o que lhes diria? Que não, não estava bem. Que sentia que todos eram mais do que ela, mesmo que ela soubesse que era tanto como os outros? E que importância tinha isso ao pé de quem não tem saúde ou comida suficiente todos os dias? 

E era uma pena que estivesse ali sozinha, sabendo que tinha tanto para dar. Podia ser engraçada, espirituosa, inteligente, uma de cada vez ou todas ao mesmo tempo. Era um desperdício que tivesse aquele cabelo sedoso, que entraçava sozinha, e  ninguém que o percorresse com os dedos, a acompanhar com uma declaração de amor.

O mundo tão grande e ela tão pequena. Toda a gente acompanhada e ela sozinha. Com um suspiro, fartou-se de estar a janela a pensar no que não tinha e virou-se soltando alguma folhas secas da planta que mantinha no parapeito da janela, sem regar.

 

No 3ºB estava o Eduardo à janela. Viu as folhas secas a cair à sua frente, sem  interromper os seus pensamentos. A sua mágoa por ser o único a estar sozinho no mundo.

 

No outro lado da rua a Sofia pensava exatamente o mesmo. Como o Tomás, em Viseu. A Catarina, em Évora. O Pierre, em Lyon. A Johanna, na Suécia. O Matthew, em Los Angeles. O Marcos, no Brasil. 
 

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