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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

24
Jan17

Conto de encontro #3

Maria das Palavras

Capítulos: 1 | 2 | 3


Quando tocou à campainha da mãe os nervos já lhe tinham passado. O Mendes tinha tanto de pouco recomendável como de engraçado e ela descontraía ao seu lado. Por outro lado, os seus dentes muito brancos, os seus olhos muito azuis e o seu cabelo muito louro iam dar a impressão de que ela estava numa fase boa da sua vida - e o que pode ser mais importante do que as aparências? O Luís ia desistir de qualquer tentativa de flirt e a mãe ia desistir de lhe tentar fazer arranjinhos com os filhos nerds das amigas. Com sorte o jantar ainda ia correr muito bem!


Sorte. Uma palavra com poucas entradas no seu dicionário. 


Assim que entraram o Mendes começou a fazer elogios altamente despropositados à sua mãe. "Parecem irmãs e não mãe e filha" estava taco a taco com  "podia perder-me nos olhos das duas" na competição "frases que não precisava de ouvir do meu convidado". Não havia bem certeza se se estava a candidatar a genro ou ao próximo da fila, mas certamente estava a abusar do galanteio. E o Luís parecia nem reparar. Andava de um lado para o outro, como chef de serviço sem prestar qualquer atenção ao que se passava. Sem qualquer necessidade para tanta azáfama porque a festa de aniversário era afinal um jantar a quatro. 


Numa ocasião em que contava ser seduzida pelo seu ex (atual da sua mãe) e fazer inveja às pedras da calçada com a sua conquista do momento, acabou sem a atenção de nenhum, a sorver sopa de açafrão e engolir bocados de borrego sem mastigar - visto que ninguém se lembrou que odiava aquela carne. Fingiu pressa assim que lhe pareceu que tinha aguentado o suficiente (tinha de acordar cedo) e saiu com o Mendes de rojo. Quase se esqueceu de oferecer à mãe o presente que tinha escolhido para ela, uma écharpe cinzenta, tanto que lha ofereceu bem antes de sair e ao fechar a porta ainda conseguiu ouvir do outro lado "e uso isto com quê?".

 

Tinham vindo no carro do Mendes, mas decidiu que voltaria para casa a pé, que não era longe. Ele protestou:

- Pensei que te ia dar boleia e depois tu me ias pagar a boleia...se é que me entendes. 
- Não entendo. Obrigada pela companhia.

E afastou-se fazendo uma nota mental para apagar o número dele e não voltar a cair em tentação. Aliás, ia fazer isso agora mesmo. Pegou no telemóvel e esqueceu-se completamente do que ia fazer, Tinha recebido uma mensagem do Luís:


"Estavas linda."

E todas sabemos. Um elogio assim em cima de um ego ferido pode trazer sérios problemas.
Quando chegou à porta de casa reconheceu o carro estacionado mesmo em frente. 

 

Comenta e Decide

 

Quem era?


1. O Mendes, arrependido pela falta de atenção que lhe tinha dado.

2. O Luís, que precisava de falar urgentemente com ela.

 

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14
Dez16

Conto de encontro #2

Maria das Palavras

Capítulos: 1 | 2 

Sem dar por isso estava outra vez a morder uma madeixa de cabelo. Já a mãe a tinha avisado que era um tique nervoso muito feio e que devia tentar outra coisa mais elegante, como piscar os olhos. Uma autêntica conhecedora da mente humana, a sua mãe. Só que não. Aliás, quando a sua mãe decidiu fazer "auto-terapia" para enfrentar a viuvez, o resto da família encolheu os ombros. As teorias de Helena prevaleceriam e não havia nada a fazer. Uma das fases envolveu dar abraços a estranhos para que aprendesse de novo a "dar-se ao mundo" nas palavras da própria. Resultou tão bem ou tão mal que a útlima dádiva tinha sido precisamente para o ex-namorado dela. 


Contar-se entre as pessoas no mundo que têm a honra de partilhar um homem com a mãe fez com que ela própria precisasse de terapia (mas não arriscou na auto-terapia, nem - por algum motivo - pediu conselho à mãe).

 

Tinha chegado finalmente ao ponto em que estava em paz com a ideia de que o seu Luís, a relação mais longa que tivera, era agora...o seu padrasto. Verdade que os seus pais sempre tinham gostado dele. Não fazia ela ideia quanto. Mas tendo feita toda a travessia do Inferno para chegar a este lugar de aceitação, começou a desenhar-se o novo problema: tinha bastante certeza que o Luís andava a tentá-la.


Pegou no telemóvel e respondeu que sim. Não tinha outro remédio, era o aniversário da mãe e uma daquelas poucas ocasiões em que ela não tinha estofo suficiente para negar. Além disso a sensação de que o Luís estava a seduzi-la podia ser passageira, quem sabe fruto da sua mente que alternava entre desejar desesperadamente alguém ao seu lado e afirmar o quão satisfeita estava entregue a si própria. 

 

Talvez devesse, só para garantir que nada estragaria a noite, levar alguém com ela. O Frederico acabara de entrar para lhe trazer alguns morangos ácidos num guardanapo. Os favoritos dela. Sorriu. Pelas gomas e pela sua própria decisão. Ligou à mãe para avisá-la que ia levar alguém com ela.

 

 

Comenta e Decide

 

Quem é ela vai levar à festa de aniversário da mãe?

  1. O Mendes, o seu mais recente caso. Se ele a usava, porque não usá-lo ela desta vez?
  2. O Celso, a paixoneta de infância que andava a meter conversa com ela no Facebook.

 

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03
Nov16

Era uma vez o Medo

Maria das Palavras

O Medo era um amigo do João que nunca o deixava fazer nada. Não faças isso que te aleijas. Não experimentes que podes errar. Não vás que ainda te arrependes. Opá, não te metas nisso. Era um amigo muito pequenino, mas com uma voz muito grossa que fazia eco e chegava a todo o lado. 

O João adorava o seu amigo e conselheiro Medo. Graças a ele levava os seus dias de forma perfeitamente pacata, sem grandes nervos, sem grandes riscos, sem grandes emoções. 

De vez em quando, é preciso confessar, o João pensava o que seria de si sem aquele amigo. Podia estrear aquela bicicleta nova, talvez. Ou ver o mundo para além da sua terrinha. Ou aprender uma língua nova. Quem sabe fazer outros amigos...Viver aventuras como as que lia nos livros. Mas era aí que o Medo lhe ajeitava a almofada na cabecinha e lhe puxava a manta até aos ombros. Deixa-te estar. Fazia-o ficar um pouco abafado, mas muito quentinho. 

O João, cujas palpitações nunca estiveram muito longe de 80 por minuto, teve saúde por muitos e muitos anos. E apesar de a dada altura o seu corpo ter deixado de responder, gasto pela passagem do tempo, o João nunca morreu. Afinal nunca tinha chegado a viver. 

 

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18
Fev16

Agasalho

Maria das Palavras

Hoje entalei as calças nas meias - não digam a ninguém. Saí mesmo de casa de calças entaladas nas meias.

Três camisolas. O casaco felpudo. Luvas. Gorro - aquele que me deixa só 3 centímetros de cara.

As botas de lenhador(a) bem apertadas com quatro nós cegos.

Tenho frio. 


Não tenho senão frio desde a semana passada. Vista o que vestir ou a queimar junto à lareira, como se fosse mais uma lasca de lenha a querer entrar. Não tenho senão frio.

Mesmo a sopa da minha mãe, que normalmente me deixa em vapores, não resulta. Talvez não possa resultar se não tenho fome e me fico por meia dúzia de colheradas que a língua quer travar. Não tenho fome mas tenho frio.

 

Chego a casa, ligo o pequeno ventilador que faz muito barulho. Deixo-o estar ligado para sempre - tão poucas coisas são para sempre e o ventilador ligado também não é - às vezes até adormeço com a dança ruidosa da ventoínha. Por estes dias parece que não oiço bem, sequer. Talvez o frio me tape um pouco os ouvidos. Me adormeça os sentidos todos. 


Hoje abusei. Dizia eu que até entalei as calças nas meias. As meias de algodão, porque debaixo das calças de ganga ainda tenhos os collants. Não deixo nada ao acaso. Não percebo como deixo o frio entrar, assim tão bem agasalhada. 

Depois tirei as luvas na entrada do edifício, cumprimentei rapidamente um cliente que já vinha a sair - atrasei-me outra vez. Por causa do frio. Passou bem? Tenho a mão gelada diz-me ele, pareço um bloco de gelo.

 

Acho que foi nesse momento que comecei a perceber. Pareço um bloco de gelo, disse ele. Esforcei-me tanto com mantas de lã e camadas de roupa e o ar condicionado do escritório sempre nos 35º, a porta bem fechada, o trapo a tapar a fresta. Esforcei-me tanto para não deixar entrar o frio. E o frio era meu. Estava dentro de mim, colado à pele, preso nos lábios, em cada músculo,  a correr-me nas veias. Tenho o frio no fundo do peito, no lugar do teu vazio. 


Afinal menti, esquece o que te gritei enquanto juntavas as tuas coisas no saco grande do ginásio - porque eu te disse que não valia a pena comprarmos uma mala grande, se nunca viajamos. Menti. Menti-nos. Menti-me. Interessa-me saber porque foste embora. Gostava de saber o que mudou ao fim de tantos anos. Tantos que já nem me lembrava que sem ti era fria como um bloco de gelo. Tantos que me esqueci que és tu o meu agasalho de tudo.  Tantos que confundi frio com tristeza, porque tu me protegias dos dois.

 

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08
Jan16

Tão mau que vou ter de partilhar. O conto de Mocholini, o Mocho.

Maria das Palavras

Como já contei, cá em casa contam-se histórias muitas vezes. Ao serão ou para passar o tempo no carro (jogos de viagem abomino, histórias é menos mal). Normalmente quem vai contar pede 3 palavras e começa a inventar. E digam-me vocês por que raio insistem em pedir-me histórias (90% das vezes sou eu a sacrificada), se me saem coisas deste género:

 

Conto: O Mocho Mocholini | Maria das Palavras

  

Era uma vez um mocho, chamado Mocholini (don't ask, deve ser influência da onda de fascistas vs comunistas). Fora desde novo treinado pela família para ser mascote do Benfica (vivia na mata de Benfica, nada mais, nada menos). Quando uma águia foi selecionada para o lugar, a família viu os seus objetivos cairem por terra, mas Mocholini não se deixou abater e continuou a treinar. A oportunidade chegou: a águia Vitória partiu os óculos a um membro do público no estádio, caiu em desgraça e Mocholini foi dos primeiros a chegar as audições, num dia triunfal para a espécie. Foi o candidato que mais impressionou - sobretudo quando lhe perguntaram "a nossa águia sobrevoava o estádio em anéis perfeitos e o caro mocho o que sabe fazer?" e ele pigarreou e respondeu "sei cantar". Que maravilha, um mocho cantor. A concorrência não teve muita hipótese e no jogo seguinte, a seguir ao hino das papoilas, Mocholini foi colocado num poleiro num palco improvisado ao centro do campo com um microfone à frente e entoou o seu canto, que para surpresa de todos (inclusivamente de quem o contratou à pressa) era uns sonoros: uuuhhhh-uuuhhhhhhh. O Benfica vinha de uma derrota pesada com o rival da segunda circular, não estava na melhor posição no campeonato - porque o Rio Ave e o Nacional não quiseram coligar-se com ele e juntar as pontuações -, portanto uma canção que se assemelhava tanto a vaiar o clube caiu muito mal. Aliás, caiu foi de gingeira nos ânimos já combalidos dos adeptos que a pronto o acompanharam e de repente todo o estádio fazia: uhhhh-uuuuhhhh. Mocholini foi retirado rapidamente do relvado e expulso do estádio, atirado com um chuto pela porta 18 com os seus pertences. A águia Vitória foi perdoada e voltou às funções - era melhor ter alguém a cegar os adeptos para não verem as desgraças do que a incentivar ecos de insatisfação. Mas aquilo que parecia um revés fatal para a família de Mocholini acabou ainda assim por ser um momento de orgulho para todos. Daí em diante, a cada passe falhado, cada golo sofrido, cada derrota, os adeptos imitavam Mocholini: uuh-uuuhhhhh. E ele ficou para sempre ligado ao clube, como o pai do vaiar benfiquista.

 

[Qualquer semelhança entre a história e factos reais, ou a minha necessidade de ser internada, é pura coincidência.]

 

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17
Set15

Pedidos simples

Maria das Palavras

Pedidos Simples | Maria das Palavras - Foto Pixabay.com

 

Encolhi-me mais no sofá a agarrar os joelhos junto ao peito. Ele a gritar comigo em resposta à minha tristeza. Que não sabia o que queria, que exigia muito dele, que ele não adivinha. 

Mata-se a trabalhar pela família. Oiço-o dizer isto muitas vezes. E não tem um agradecimento em troca. 

Há três anos decidimos que seria melhor assim, quando nasceu o Miguel. Eu dedicar-me-ia a tempo inteiro aos nossos filhos e à casa. Os avós estavam longe, não podiam ajudar. O dinheiro para a creche dos dois seria mais dispendioso do que eu recebia de ordenado, num emprego que era um beco escuro de desapontamentos. Foi uma decisão comum, por toda a família. Que me custou parte da independência e quase todas as aspirações. 
Ele esqueceu-se disso: que foi uma decisão comum, por toda a família. Eu nunca cobrei a minha parte. Ele cobrava-me muitas vezes o sacrifício dele.

 

Nesse dia, a Teresinha e o Miguel já dormiam. Eu, que me sabia essencialmente feliz, tinha algumas frustrações guardadas no peito. Era um daqueles dias em que só conseguimos ver nevoeiro. Eu estava só com ele, a ver um filme qualquer no sofá. O meu companheiro de sempre e para sempre. Sentia-me segura. Abandonei-me a ele e comecei a chorar devagarinho. 

Levantou-se a um tempo, como se a minha mágoa fosse chuva ácida. Sem que o atacasse, começou a defender-se a perguntar-me o que queria eu.
Balbuciei um "Precisava que..." mas algures entre os soluços e a reação dele perdi a habilidade de juntar letras e proferir sons. 

Mais uma vez não sabia o que eu queria. Queria que desembuchasse. Tremi com aquela palavra feia. 
"Pede-me o que quiseres, mas não me faças isto", atirava ele. Ao fim de tantos anos, aquela era a única coisa que ele ainda não tinha aprendido sobre mim. Perguntou-me sem tréguas, minutos a fio, o que eu queria e, sem outra resposta da minha parte que não o silêncio de olhos baixos, desistiu. 

Eu sozinha, quieta, chorosa, desesperada pelo seu amor. Ele inflamado, distante, frenético, deseperado porque me ama.
"Não sei o que queres", repetiu saindo da sala.

 

 

Queria um abraço, sem ter de o pedir.

 

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19
Ago15

O amor está nos detalhes #23

Maria das Palavras

Fada dos dentes - Costume company | http://rubies.com/item/?n=17768

Fiz um esforço hercúleo para me manter acordada até ele chegar a casa depois do trabalho (era só à meia-noite, mas eu a partir praí das 21h já passo de Cinderela a abóbora). Conversamos de cabeça encostada nas almofadas enquanto ele me passa as mãos pelo cabelo e ele pergunta - completamente off-topic:

 

Ele: Quando eras pequena fazias aquilo de pôr os dentes que caíam debaixo da almofada para esperar a fada dos dentes?

Eu (sobrancelha erguida): Não me conheces já o suficiente para saber que nunca acreditei no Pai Natal e seus duendes?

Ele: Mas sabes o que é?

Eu: Claro...deixas o dente debaixo da almofada, ela troca por uma nota durante a noite.

Ele: Tem de ser dinheiro? (a olhar para a minha almofada)

Eu (já desconfiada): Tem...e uma nota das gordas.

Ele: E se for uma coisa que se compra com dinheiro?

 

Viro a almofada. Não deixei nenhum dente (graçádeus), mas tinha um livro. 

Era menina para dormir a noite toda sem dar por nada. Não dou para princesa da ervilha, aparentemente. Mas mesmo sem ser princesa, sou uma mimada. Pela minha fada dos dentes pessoal. 

 

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28
Jul15

À Janela

Maria das Palavras

Pixabay free images | Public Domain - Janela / Window

  

Ali estava ela, na janela do 5ºB, a olhar para o mundo que se estendia à sua frente a partir de Lisboa. Que pequena que era. Que sozinha que estava. 
Toda a gente tinha alguém. Estavam de férias com as caras-metades ou aquele grupo de amigos inseparável. Toda a gente tinha um programa mais interessante do que estar à janela naquele domingo ameno. Só ela é que não.

Então tinha tempo para maldizer a sua vida cinzenta. Mesmo que em todos os dias da semana,a todos os que se cruzassem com ela, mostrasse uma montra colorida, em forma de sorriso. O "como estás" responde-se automaticamente com "bem", o "está tudo bem" responde-se automaticamente com "sim". E de resposta correta (mas incompleta) em resposta correta (mas incompleta) se constrói uma fachada pintada de fresco em cima de paredes de cimento áspero. 

Não é que não fosse genericamente feliz, que não tivesse amigos do peito, uma família quente de ternura. Mas o que lhes diria? Que não, não estava bem. Que sentia que todos eram mais do que ela, mesmo que ela soubesse que era tanto como os outros? E que importância tinha isso ao pé de quem não tem saúde ou comida suficiente todos os dias? 

E era uma pena que estivesse ali sozinha, sabendo que tinha tanto para dar. Podia ser engraçada, espirituosa, inteligente, uma de cada vez ou todas ao mesmo tempo. Era um desperdício que tivesse aquele cabelo sedoso, que entraçava sozinha, e  ninguém que o percorresse com os dedos, a acompanhar com uma declaração de amor.

O mundo tão grande e ela tão pequena. Toda a gente acompanhada e ela sozinha. Com um suspiro, fartou-se de estar a janela a pensar no que não tinha e virou-se soltando alguma folhas secas da planta que mantinha no parapeito da janela, sem regar.

 

No 3ºB estava o Eduardo à janela. Viu as folhas secas a cair à sua frente, sem  interromper os seus pensamentos. A sua mágoa por ser o único a estar sozinho no mundo.

 

No outro lado da rua a Sofia pensava exatamente o mesmo. Como o Tomás, em Viseu. A Catarina, em Évora. O Pierre, em Lyon. A Johanna, na Suécia. O Matthew, em Los Angeles. O Marcos, no Brasil. 
 

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03
Jun15

O conto de não-retorno

Maria das Palavras

Respirou fundo. Tinha aquela sensação no peito que não se explica. Como se alguém lhe sugasse o ar e o sangue e lhe travasse e acelerasse o tambor do coração a seu gosto. 
As caixas amontoadas ao canto. Nem se podia dizer que estivesse tudo fora do sítio porque ainda não tinham um onde pertencer. Esse seria o trabalho dela naqueles dias que se seguiam à mudança. Definir sítios para as suas coisas. Já que não encontrava um sítio onde coubesse ela.

 

Mentira. Cabia no colo dele. Era essa a sua casa. Mas o colo dele ja não lhe pertencia.
A sensação que lhe esvaziava o peito não tinha a ver com a desorganização geral - não desta vez. Era um latejar da traição que lhe ardia no corpo há mais de uma semana.

Tinha sido logo no primeiro encontro que lhe havia anunciado que jamais perdoaria uma traição. Tinha visto a sua mãe fingir que não chorava vezes demais. Nunca o toleraria na sua própria vida. Avisou-o. Não haveria retorno.


Começou por desencaixotar os livros, já que a mobília estava no sítio e não suportava ver estantes vazias. Abriu sem querer o exemplar d'O Velho e o Mar que ele lhe tinha oferecido e leu a dedicatória. Ele juntava sempre uma dedicatória aos livros que oferecia. 


Que tenhamos a mesma perseverança do velho, para que contra todas as marés revoltas e à boleia de todos os bons ventos, sejamos felizes para sempre. Sem espinhas.


Quando se conheceram, num esforço para impressionar aquele homem lindo por quem todas as suas colegas suspiravam, disse-lhe que sim, claro! Conhecia Hemingway. E coincidentemente o livro favorito dela era o mesmo dele: O Velho e o Mar. Era mentira, como ele provou em três tiradas. Ela desconhecia a história do velho pescador que se lançava todos os dias ao mar, muitos dias seguidos, sem resultados. Que um dia pescou o maior peixe jamais visto, mas teve de lutar para o puxar para o barco, depois contra tubarões para o manter...que chegou a terra sem nada senão a espinha gigante. Que ainda assim foi cumprimentado pelos da terra. Não pela conquista, que já nada sobrava. Mas pela perseverança.


Teria ela de ter perseverança? Lutar contra a catástrofe que se colou ao seu casamento? Haveria lugar para o perdão?
Fechou o livro e arremessou-o contra o canto da sala. 

Ele tinha querido perdoá-la. Foi ela que não se perdoou.

 

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