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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

30
Jul14

Uma Volta no Carrossel da Vida - Parte I

Maria das Palavras

A Mónica-que-manda (é assim que lhe chamo sempre, mentalmente, por causa do nome do blog) teve esta ideia genial: uma história escrita a várias blogo-mãos. Fico assim destroçada por ainda ser pequenina nisto dos blogs e não ser da liga deles para me convidarem a participar. Eles (A Mulher é que Manda, Farmácia de Serviço, Dias de uma Princesa) são assim tipo Campeonato Nacional e eu só jogo o amigável lá da aldeia (e mesmo assim ainda estou no banco à espera que alguém se lesione). Vai daí achei que ninguém levava a mal se eu começasse algo semelhante aqui neste blog da Liga dos Últimos [a chegar]. 

 

Quem convido a continuar a história é um mocinho que cá para mim até joga na primeira divisão, mas estou em crer que entra neste torneio amigável com equipas de juvenis (eu) com algum prazer: o Homem Sem Blogue. Pois siga o capítulo I e vá daí em diante até ao infinito e mais além. Homem Sem Blogue lê, escreve e passa a outro e não ao mesmo, sim?

 

Foto daqui: http://10.ital.z8.ru/index.php?page=attractions&category=39



Uma Volta no Carrossel da Vida - Parte I

 

Mal acordou olhou-se ao espelho. Fazia sempre isso. Achava que o cabelo desgrenhado e os lábios inchados nem lhe ficavam mal. Ou então a explicação para não se achar tão feínha logo pela manhã tinha a ver com o facto de ainda não conseguir abrir bem os olhos. Talvez fosse mais isso.
Os olhos não estavam inchados de chorar. Já tinha parado de chorar todas as noites há pelo menos uma semana. Mais precisamente há 9 dias. Sabia-o como um viciado em recuperação e repetia para si numa graça mental "Olá, eu sou a Camila e não choro há 9 dias". E as vozes imaginárias respondiam "Olá Camilaaaa.", num coro em desacerto.

Há 9 dias que já não era feliz para sempre. 

Ela que nunca tinha gostado de parques de diversões via-se obrigada a dar uma volta no carrossel da vida, depois de alguns meses na casa do terror.
Não disse a ninguém o verdadeiro motivo pelo qual o seu casamento acabara. Deixara correr os comentários bem além dos 42 km da maratona, sem dizer uma palavra: "A casar tão nova, estava-se mesmo a ver", "Se calhar não conseguiram ter filhos, afinal o casamanto já levava 5 aninhos e nada...".

Ela que na feirinha lá da terra nem gostava de andar nas chávenas do carrossel que giravam e a deixavam logo tonta via-se obrigada a dar uma volta no carrossel da vida. Só andou uma vez nas chávenas. Quando ele a levou. Ainda era um amor de criança e ela não sabia dizer que não a nada que ele pedisse. Olhando agora para trás nunca aprendeu a dizê-lo. Mesmo quando o amor deixou de ser de criança. Mesmo quando o amor eram dois adultos com um gato num T1. Mesmo quando o amor já era um velho a bater-lhe nas canelas com a bengala. Mesmo quando já não era amor.

Isto tudo ela pensou ainda antes de lavar a cara. Antes de se arranjar para ir para o trabalho, já atrasada. Meia taça de cereais e um café quente que escorregou pela garganta, a queimá-la. 
Sentou-se à secretária, atendeu muitas vezes o telefone, fez a pausa para lanchar,  atendeu mais telefonemas, depois parou para almoçar, trocou palavras simpáticas com as colegas mais afastadas e de escárnio com a sua colega-amiga de há anos e atendeu mais vezes o telefone até o relógio decidir que já chegava.

Os dias passavam rápido. Não era suposto ser assim. A tristeza devia fazer os minutos arrastarem-se por horas - era o que lhe tinham vendido a vida toda em romances de cordel. Mas as horas dela sumiam-se e, sebastianistas, nunca mais regressariam, nem em noites de nevoeiro. A vida tinha de ser vivida. Foi por isso que casou tão cedo. A vida é curta e sabe a pouco, sempre o soube. E doía-lhe cada dia que passava sem que ela o fizesse valer a pena, cada hora sem sentido que se evaporava em menos de nada. Doía-lhe mais isso que a ausência dele.

Tilintava as chaves enquanto subia as escadas para entrar a casa. Quase tropeçou no cesto de rosas vermelhas que lhe tinham sido deixadas no tapete. 
Uma nota por entre as folhas, escrita à mão, numa caligrafia que lhe era desconhecida: "Tenho um desafio para ti. Amanhã, no Café das Rosas Vermelhas às 17h.".

 

O bom senso mandou-a entrar depressa, fechando a porta com estrondo atrás de si, e rasgar a nota de imediato. Seria certamente uma brincadeira de mau gosto. Tinha a certeza. Poderia até ser perigoso. E daí, talvez fosse disso que ela precisava naquele momento. Seria aquele o carrossel que a esperava, o tal que daria a volta à sua vida e faria cada hora valer a pena?
O dia a seguir era um Sábado e ela tinha traçado planos específicos para...nada. 
Foi assim que às cinco da tarde desse Sábado se dirigiu ao local indicado e avistou um homem sentado na mesa mais recôndita, com um ramo de rosas pousado em cima da mesa. Aproximou-se e colocou-lhe à frente a nota rasgada-e-colada.

- Isto é seu?

Ele olhou-a com surpresa mal disfarçada. Ela estava já preparada para se afastar, pois percebeu que, apesar das pistas, se tinha enganado na pessoa. 

- Espere. É sim. Como encontrou esta nota?
- Estava à minha porta.
- Com um cesto de rosas? Em cima do tapete azul?
- Precisamente. Então foi o senhor que o deixou lá.
- Sim. Só não era para si...

Quem se tinha enganado era ele.

 

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