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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

05
Jan20

A cabeleireira. Com a tesoura. No salão.

Maria das Palavras

O título é só para quem já jogou Cluedo. O medo é real. 

 

Foto de Guilherme Petri no Unsplah - Salão de Cabeleireiro


Eu sofro de um síndrome. Aliás, três.

O primeiro é fobia de salões. Desde a conversa de circunstância, às revistas com notícias da realeza espanhola, às senhoras que vão só lavar a cabeça, tudo me causa troçolhos. 

O segundo é mais grave. Tenho medo de ser assassinada pela cabeleireira. São pessoas que varrem cabelo humano e ostentam tesouras como profissão. Julguem-me se quiserem. Além disso, aturar conversa alheia durante, pelo menos, 6 horas por dia, chamem-me louca, mas é coisa de sociopata.


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Apesar disso, continuo a não ter o dom de fazer a manutenção cabelo. E ninguém que me ajude. O Moço não corta bem uma courgette, imaginem uma franja. E da última vez que pedi ajuda à minha irmã para me pintar o cabelo, ela, ao lavar, enfiou-me o jacto do chuveiro num ouvido e ainda hoje não recuperei completamente a audição. 

Por isso apesar dos últimos dramas de salão: 

 

1. O dia em que me tentaram partir o pescoço (obrigada Agir, por arruinares esta frase) ou o penteado de casamento em 2017.

2. O terrível episódio da repa em 2018.

3. O corte sobre o qual não desabafei aqui porque desabafei a chorar em 2019.

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Tive de voltar. 


Não pensem que me esqueci do último síndrome. O terceiro problema é que sempre que gosto muito de como o cabelo está ou muita gente me elogia o cabelo eu penso: TENHO DE O MANTER ASSIM.

Então. Muito naturalmente. Vou cortá-lo.

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Não sei explicar. É como se pudesse ir à cabeleireira e ela efetivamente cortasse dois dedinhos só para aquilo que me agrada se manter mais tempo.

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Pois bem. Depois do episódio de Joãozinho em 2019 (fiquei com o pescoço à mostra, gente! desaprendi como se atava o cabelo!) arrisquei ir ao mesmo salão, porque há lá uma cabeleireira em quem confio e outra que me dá tremores quando diz que um dia me há-de cortar o cabelo mais comprido de um lado do que do outro, que "se usa". É aqui que bate a memória da minha mãe a obrigar-me a vestir calças de bombazine porque "se usa".  Bem me podem dizer que posso chegar lá e escolher a cabeleireira, mas já vos disse que as temo (vejam o síndrome número dois).

 

Pois nesta ocasião cheguei lá e exultei de alegria! A cabeleireira perigosa estava fora e teve de ser a minha favorita a cuidar de mim. Relaxei. Cheguei mesmo a dizer que gostava muito do trabalho dela. 

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Estava felicíssima, até com a Hola na mão. Até ao momento em que começo a ver que ela está a cortar mais de um lado do que do outro. "Deve estar a meio do processo. Vou-me dedicar à Hola."
Quando termina (cabelo seco e tudo) a minha cabeça é a Torre de Pisa. Inclinada, por mais que eu esteja direita. 

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Deixem que vos explique. Eu nunca fui diagnosticada mas desconfio ter um ligeiro OCD que se revela ao nível de combinar a cor das molas da roupa, a roupa interior com a exterior, alinhar comandos e ter tudo paralelo e perpendicular, direitinho na minha secretária. Não estar convencida do lugar certo de uma cadeira que sobra na sala é coisa para não me deixar concentrar no trabalho. 

Portanto imaginem-me num estado permanente de desequilíbrio dentro e agora FORA da cabeça. Alguém já jogou Wii Party? Sabem quando no jogo do Navio, quando depois dos mini-jogos temos de colocar os bonequinhos de forma a que o barco não afunde e ao concluir com sucesso a senhora anuncia BALANCED.

Wii Party


Eu NÃO estou. Estou 24/7 assimétrica e a isto (gesto de juntar o polegar ao indicador) de pegar eu numa tesoura e tratar do assunto. A outra opção é ir à concorrência acertar o cabelo, mas neste momento já creio que tudo possa acontecer nessa outra visita. Prefiro fechar-me em casa  até 2023. 

Não vos maço mais. Só queria que rezassem por mim. 

Um adeus inclinado. 
Maria

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30
Jan17

O dia em que a varredora de serviço me cortou o cabelo.

Maria das Palavras

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Sou tão boa com caras (#not). Creio que já vos disse que sou meio distraída. Posso passar pela minha mãe na rua e não a conhecer (pouco provável, já que moramos em cidades diferentes). Tem muito a ver com o ir focada na minha missão e desatenta ao resto, mas noutros casos tem a ver com eu ser péssima com reconhecimento facial...Nunca me acontece o momento "acho que conheço aquela pessoa de algum lado". Ou se acontece, é por exemplo alguém com quem trabalhei com dez anos e devia conhecer de cor e salteado. 

 

Conto isto porque fui ao cabeleireiro aqui da rua, onde já fui umas...5 vezes em dois anos. Em 2016 fui apenas uma vez, mas tendo em conta que quando pedi à minha irmã que me pintasse o cabelo em casa perdi a audição por causa de água no ouvido e quando pedi ao Moço fiquei com a parte da frente do cabelo malhada ao melhor jeito Cornélia, propus-me a ser mais regular no salão (odeio) num futuro próximo. Estavam apenas duas pessoas a trabalhar, que reconheci logo. Uma era a cabeleireira mais velha lá do sítio, a outra era uma rapariga que costuma andar lá só a varrer o chão e lava os cabelos às clientes quando há muito afluência - faltava aquela que me costuma tesourar e que até tem o mesmo nome que eu, pelo que a conheço bem.

 

Ora bem, quem avança para cuidar de mim é a moça que só costuma varrer o chão...tudo bem, para já era só escolher a cor certa e pincelar, há-de fazer melhor a pintar que o Moço. Foi eficaz, a tinta lá absorveu em tempo suficiente para a terra dar a volta ao sol, e a seguir chamou-me para lavar. Lavar era coisa que ela já fazia de vez em quando por isso não estranhei. Achei que chamasse a outra cabeleireira quando fosse para cortar...

 

Só que não. E aí entrei num pânico ligeiro, mas pensei: se ela vai fazer isto é porque sabe, deve ter tirado a formação há pouco tempo. Cheguei mesmo a pensar: ora bem, se ficar mal cresce outra vez. Ela começa a cortar as minha belas madeixas ruivas e eu em olhares de socorro para  a cabeleireira mais velha - que nem olhava para nós, a ver se a outra estava a fazer bem. Inacreditável! Deixar assim a novata à vontade...Não sabia se isso era motivo para descansar ou enervar-me. 

 

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Tinha-lhe dito que queria franja, não direita, mas um pouco de cabelo mais curto à frente a cair de lado (isto quanto menos cara se vir, melhor) e ela pergunta-me por onde deve cortar. Ai! Por onde?! Mas ela é que está a cortar, já lhe expliquei o efeito que queria, se ela não sabe a técnica eu também não saberia. Confiei (que remédio!) e ela fez exatamente como eu tinha em mente. Até senti necessidade de lhe dizer que estava impecável ("bom trabalho"), como quem dá uma pancadinha nas costas e motiva. Para iniciante, ficou um mimo.

 

Quando ela já me está a secar o cabelo é que olho bem para a cara dela e penso como é parecida com a outra cabeleireira que me costumava atender. Seriam irmãs? Não. Antes de secar o cabelo todo eu já me tinha apercebido: era ela! Era a minha cabeleireira e não a rapariga que varre o chão! Essa é que não estava lá...

Claro que todo o drama se passou só na minha cabeça, mas mesmo assim, fiquei tão envergonhada que eu, a Maria-não dá-gorjeta, arrendondei a conta de 32,5€ e lhe paguei 35€ sem querer troco. Quando me voltarem a perguntar que super poder quero, já não vou hesitar entre a invisibilidade e o teletransporte. Direi sem dúvida: o dom de reconhecer pessoas. 

 

P.S.: 'Tou linda.

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12
Mai16

Conclusão: parece que fui à Colour Run.

Maria das Palavras

Pois bem que eu tinha um post-it na agenda a dizer a 1 de Março: ir à cabeleireira. Era para estar bonita para os aniversários. Mas não fui e mudei o post-it para Abril. Mas não fui e mudei o post-it para Maio. Mas não fui e entretanto há casório e eu não quero manter o titulo de blogger menos in do pedaço à conta de umas raízes de cabelo maiores que as da outra do Crepúsculo na Met Gala. 

 

Pente - Imagem Pixabay

 

Portanto, tendo também deixado escapar a oportunidade de a minha irmã o fazer na semana passada, anunciei ao Moço: vais ter de me pintar o cabelo. Reação:

- Não podes pedir à [cunhada].

- Não...

- Não podes pedir à [amiga].

- Não! Tu moras comigo, pintar o cabelo não é física quântica, vais-me ajudar.

 

Protegi-me devidamente. Toalhas a toda a volta, plásticos na bancada do WC, o material todo à sua diposição e besuntei vaselina junto à linha do cabelo para não ficar muito manchada. 

Conclusão: repuxou-me tanto o couro cabeludo que parece que fiz um lifting, tenho tantas manchas de tinta pela cara toda que ou assumo varicela ou digo que fui à Colour Run e sabe Deus se ainda me vai cair o cabelo pela eternidade que a tinta demorou a pôr. Ah, e também acabou por não ser tanto pintar o cabelo, como fazer madeixas...

 

Ah, mas já está. Vaca tresmalhada a caminho do casório.

Obrigada Moço. Aposto que para a próxima me pagas a ida ao cabeleireiro...

 

 

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