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Maria das Palavras

A blogger menos in do pedaço, a destruir mitos urbanos desde 1986. Prazer.

12
Out20

A Litte Life, a Grand Book

Maria das Palavras

A Little Life - Opinião Maria das Palavras

 

Parte 1 - 7 de Outubro 2020

É a primeira vez que começo a escrever sobre um livro sem já o ter terminado. A edição que estou a ler no Kobo tem 1345 páginas (impresso tem umas 700 e trocos) e vou a pouco mais de metade, mas estou cheia de vontade de falar sobre ele.

Ainda não chorei, como é suposto. Não sei se já passei o bocado onde é inevitável (dizem) chorar, mas já passei certamente por várias cenas onde é suposto querer parar de enjoo e revolta. Não quis parar de enjoo e revolta, porque acredito em pleno na crueldade humana e sabendo o quão triste e traumático o livro poderia ser, já esperava semelhantes cenas. 

É um livro muito fácil de ler em termos de escrita, mas por outro lado composto de muita miséria e tristeza. Relata a vida de 4 amigos à medida que crescem na sua vida adulta. A forma como esse relato é feito é muito cativante, ora revelando passando, ora desvendadndo futuro, enquanto vamos sabendo do presente. E depois de uns primeiros capítulos mais parados (mas nem por isso desinteressantes), entramos na espiral da vida do Jude em particular e é impossível parar. 

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Tenho de o comparar com a última história de um rapaz a crescer que li, que foi O Pintassilgo, e anunciar que estou a apreciar muito mais este em todos os sentidos (argumento, escrita, cadência, interesse das personagens).

Uma das críticas que já tinha ouvido ao livro era o facto de dar tão pouca relevância às personagens femininas. Quase não existem e quando existem, pouco se fala delas. Primeiro achei que fosse porque o escritor era homem e escreve sobre o que melhor conhece. Depois apercebi-me que é uma autora!  Mulher! 
Mas apesar de concordar que se fala pouco de mulheres, não concordo que lhes tirem relevência. É que leio a Ana (para quem sabe) como a personagem que poderia ter mudado tudo. E independentemente do género, consigo identificar-me com características de algumas personagens (a incapacidade de falar do Jude, por exemplo), pelo que não me sinto pouco representada.

 

Parte II - 12 de Outubro 2020

Acabei! Acabei ontem, mas estava a tentar não ligar o computador (e não gosto de escrever no blog no telemóvel). É um excelente livro. Faz lembrar a série This is us no sentido em que tudo o que houver de mal para acontecer, pois acontece!

Em  certas coisas, é um niquinho previsível, e os capítulos finais não foram para mim tão entusiasmantes como o central. Mas continuo fã. Continuo a dizer que foi melhor que O Pintassilgo. 

Como é, em termos técnicos, longo-comá-porra e triste-a-rodos, não acho que seja leitura para toda a gente. Também não está editado em português, por isso para já só é opção para quem se sinta à vontade a ler em inglês (sendo a linguagem toda muito fácil).

A promessa que me fizeram é de que iria chorar e isso não aconteceu, pelo que as câmaras da CMTV já estão a caminho de minha casa, até porque entendo perfeitamente as muitas situações - as bonitas e as feias - em que se eu não fosse uma pedra insensível aos problemas que não me são próximos, poderia ter acontecido.

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E quando o livro acaba, é mesmo o fim.

 

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05
Out20

Este Portugal D'ouro

Maria das Palavras

Praia Fluvial da Rede - Vale do douro - Mariadaspalavras.com


Andava a salivar por este fim-de-semana. O plano era simples: casa com vista para o Douro, muita braçada na piscina e leituras na espreguiçadeira ao sol. Disto tudo sobrou a vista para o Douro, visto que este ano Outubro é mesmo Outono (ah, que saudades dos comentários "as estações andam todas trocadas, 5 de Outubro e ainda está verão!"). Ainda assim, numa fase em que ando submersa em trabalho há semanas a fio e já não sei dizer se tenho tanto trabalho que não consigo ver nada mais à frente, ou se até já podia acalmar, mas agora habituei-me a não pensar em mais do que trabalho do que reequilibrar os pratinhos todos, respirar um oxigénio diferente foi importante. 

 

Ficámos na Quinta da Bandeira, uma propriedade gerida pelo sr.Paulo com 3 casas perfeitamente equipadas em Mesão Frio, sobre o vale do Douro. Cada propriedade tem uma piscina privada e acomoda bem famílias ou grupos - mas se eu soubesse que ia com frio tinha reservado a casa com soalho aquecido! Valeu a pena, ainda assim, fica a recomendação se querem passar uns dias nesta zona linda de Portugal e preferem ir em modo casa do que hotel (para hotel recomendo sem margem para dúvida o Delfim Douro).

 

Não levámos guia, porque eu ando irreconhecível: não planeei nada, nem lista de compras para levarmos fiz. Mas passeámos bastante pela serra, captando com os olhos e com as máquinas as rasgos de sol na paisagem, e os meus spots favoritos ali pertinho, todos diferentes foram: o miradouro de São Silvestre, os Moinhos de Mesão Frio e a Praia Fluvial da Rede. Claro que ainda demos uma perninha à Régua para ir buscar aqueles rebuçados maravilhoso que provei quando fomos no comboio histórico (que são açúcar puro, mas sabem a renascer).

 

Moinhos em Mesão Frio - Maria das Palavras

 

O miradouro de São Silvestre é um dos tais que tem baloiço. E lamento muito por quem só vai lá para tirar fotos porque o baloiço é uma diversão pegada. Super alto e mesmo com capacidade de nos atirar para a serra a voar, com o balanço certo. Mesmo divertido (até me esqueci que estava frio) e não conseguia parar - sobretudo porque como não chegava com os pés ao chão, não conseguia efetivamente travar, parecia uma baratinha tonta a agitar os pés.

 

Miradouro São Silvestre - Mesão Frio - Serra do Marão - Maria das Palavras

 

Tenho a certeza que ficou muito por explorar, mas precisava mesmo era de desligar, daquela forma que só conseguimos quando nos afastamos um bocadinho de casa. E mesmo sem picar outros pontos turísticos, fazer trilhos ou provar mais iguarias da região, o simples ato de andar de carro por estas curvas, vale a sempre a pena.

 

Praia Fluvial da Rede - MariadasPalavras.com

 

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01
Set20

Bem-vindos a Sezembro

Maria das Palavras

Hoje tive 3 segundos para frequentar redes sociais, o que deu tempo para ver 3 stories. E os 3 davam boas-vindas a Setembro. Que bom que chegou, finalmente. Mês de recomeços. Queremos fazer fast forward aos últimos meses e avançar para as datas que gostamos, para um ano diferente até (este 2020 nunca mais acaba!). Mas antes de acabarmos de dizer a palavra Setembro, vão ver que já é Dezembro. E que 2021 não só vai chegar, como vai passar a correr. E cá estamos nós, na ânsia que os dias corram, para chegar mais outro, sem aproveitar este exato minuto.

Lembro-me sempre do filme Click. Que recomendo MUITO se nunca viram, apesar de parecer só mais uma comédia tola do Adam Sandler...e, ok, sob várias perspetivas, é mesmo. 

Só que tem uma lição valiosa, numa altura (é de 2006! e começa a ser assustadora a quantidade de factos destes que me fazem sentir velha) em que nem se falava de mindfullness e gratidão. Ele vai a uma loja pedir um comando universal e vendem-lhe efetivamente um comando universal. Literalmente. Que controla o universo. 

Então ele vai passando à frente bocadinhos chatos, como nós às vezes fazemos com a publicidade. Duche? Passa à frente. Reunião chata? Passa. E, às tantas, ao longo do filme, vemos como vale a pena viver tudo. Até as partes chatas da vida. Até viver durante esta época louca, invulgar, incerta, de pandemia, em vez de querer chegar ao dia em que tudo já passou, a correr. Porque é de todos esses momentos (bons e maus, divertidos e chatos, fevereiros ou setembros) que se compõe a nossa existência. 

E agora vou-me. Que já é Setembro, e ainda não acabei o que tinha para fazer em Agosto.

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06
Ago20

Uma linha por dia, 5 anos de memórias

Maria das Palavras

One line a day - Diário de 5 anos por Maria das Palavras

 

Desde que sei escrever que escrevo para mim. Em diários de papel, num blog (mesmo que mais gente leia), em documentos de word que às vezes apago logo de seguida. Textos gigantes, três linhas ou mesmo algo mais sucinto, como foi o Diário da Gratidão. Chamem-lhe doidice, terapia, tempo a mais (isto não pode ser). É a maneira como processo as coisas. Mas além disso é uma forma bonita e muito pura de voltar a momentos e sensações. 

No início deste ano comecei um diário novo (este que vêem na imagem, que encomendei na Amazon ou no eBay). É um diário de 5 anos. Que tenho escrito religiosamente todos os dias. Quando salto alguns tiro nota no telemóvel e depois passo para lá. 
Não há espaço para escrever muito e portanto não se perde muito tempo. Escrevo algo que fiz, ou como me estou a sentir, ou algo que aconteceu, um livro ou série que acabei. Não há regra, é o que me vier à cabeça sobre o dia, bem no fim ou na manhã seguinte. Por exemplo: "2 de Maio - Fiz um bolo de laranja ótimo. Fechem o mundo!" ou "5 de Março - Acho fantástico que quando o coronavirus começa a explodir em Portugal, eu fique constipada...".

Nem sabia que este ano ia ser tão sui generis para registar, mas está cheio de observações banais.

 

Uma linha por dia, diário de 5 anos, Maria das Palavras

 

O engraçado é que ao longo dos cinco anos, vou sempre no mesmo dia do ano, escrever na mesma página. A folha começa com a data e o ano preenchemos nós antes de cada linha. Quando chegar ao 5º ano, vou ver como foi o dia 6 de Agosto nos 4 anos anteriores. 

Não tem nenhum intuito terapêtico, embora saiba que me faz bem (é nas palavras escritas que desabafo) e me ajude efetivamente a perceber algumas coisas. Como: escrevo demasiados dias sobre trabalho. O que talvez queira dizer que preciso de tirar mais partido dos meus dias para além do batente. 

 

E era isso. Queria partilhar convosco, porque cheguei a Agosto e ainda não desisti e continue a achar piada ao conceito. Pode ser que achem graça também e queiram levar para os vossos dias. A internet até pode ser um poço de miséria, mas nunca se esqueçam que é também, sobretudo e dependendo de nós, um espaço de partilha.

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22
Jul20

Os melhores livros que li em 2020 (por agora)

Maria das Palavras

Este ano está a ser atípico mesmo, portanto ninguém me vai levar a mal se começar já a fazer retroespectivas. Estamos em Julho e já li 27 livros. No início do ano o objetivo eram 24, por isso - vejam só - há coisas a correr melhor do que o esperado neste ano maluco. Na verdade até já tinha falado sobre alguns destes livros num episódio do podcast Mensagem de Voz, mas desde esse momento li mais uns quantos (10...) e o quadro geral sofreu alterações. O aclamado Pintassilgo nunca fez parte dos favoritos, nem a grande tendência livro-série Pequenos fogos em toda a parte (meio aborrecidinhos). A Delia Owens e o João Tordo foram destronados.

 

Sem mais demoras, vamos às minhas recomedações!

 

Vozes de Chernobyl

 

O livro que nos ensina

Li As Vozes de Chernobyl, con factos reais sobre o desastre que todos conhecemos. O livro que inspirou a série Chernobyl da HBO (também ela recomendadíssima). E apesar de ser uma coleção de relatos, uns mais intensos, outros mais aborrecidos, é um quadro real, cru e inesquecível da nossa história. Há duas ou três passagens que não me saem da memória, como o tipo que voltou do desatre e ofereceu o barrete com que andou na zona radioativa ao filho. 

Nesta categoria fica a menção honrosa para o livro Holocausto Brasileiro. Não considero um livro escrito de forma muito interessante mas deu-me a conhecer uma realidade que desconhecia completamente: um hospício onde milhares de brasileiros foram aniquilados ou (sobre)viveram em condições desumanas).

 

A Seleção

 

O livro que é tão mau que é bom

Por mais vergonha alheia (na verdade, própria) que me cause, não posso deixar de incluir a trilogia A Seleção de Kiera Cass nesta short list. E sim, de Chernobyl para "35 garotas e uma coroa" descemos um bocadinho o nível. É uma espécie de reality show tipo The Bachelor, mas com princesas. Também é uma distopia, mas isso é pouco relevante na trama. É mau? É. Devorei? Devorei. Às vezes tudo o que precisamos é de um destes livros tão maus que são ótimos. Parece que a partir do quarto livro a coisa se inverte e são as moças a ter a faca e o queijo na mão, mas só li os três originais. Achei que se se chama trilogia, não devia haver cinco...

 

A Paciente Silenciosa

 

O melhor thriller

O Mais recente foi o The Hunting Party (da Lucy Foley), que também achei interessante, e antes desse tinha adorado o Uma Gaiola de Ouro, da Camilla Lackberg. Mas elejo como favorito A Paciente Silenciosa. Há que diga que é previsível, mas eu só vi o que se passava mais perto do fim e por ter mantido a surpresa, gostei bastante da descoberta. O andamento do livro também é muito gostoso, porque vai alternando entre duas perspetivas. O da paciente que mantém o silêncio há anos desde que foi acusada do homicídio do marido (não é spoiler) e o psiquiatra que a vai tratar na instituição onde está internada e que tenta desvendar o que realmente se passou.

 

Noivos à Força

 

O romance que não é um cliché total

Noivos à Força foi uma recomedação do BookGang da Helena Magalhães. Um dia pus-me a ler a amostra na loja do Kobo e não resisti a comprar para continuar a facilidade. Afinal o Kobo não são só vantagens! É demasiado fácil comprar livros...
É um romance que não começa com o típico "eles olham-se e apaixonam-se". É claro que continua a ter clichés, mas achei muito fresco para a categoria. É daqueles que sei que todas as minhas amigas vão adorar ler.

 

Daisy Jones & The Six

 

O livro que se lê num sopro

Daisy Jones & The Six tem um grande defeito: parece real e é ficção. É a história de uma banda (ficcional) na sua ascenção, apogeu e queda, com duas figuras centrais, mas contada alternadamente pela voz de todos os elementos da banda e outras pessoas envolvidas. Que balanço tem o livro! Lê-se muito depressa e mesmo que não encontrem o final que queriam, prometo que a viagem vale a pena.

A Educação de Eleanoe

 

O livro que todos devíamos ler

Já falei sobre ele aqui e por isso não me alongo. Trata-se da Educação de Eleanor. Um livro terno e tão realista. Encantador, apesar de estar todo contruído em cima de problemáticas graves. É sobre saúde mental, mas é sobre nós todos. É uma história louca e a história da nossa vizinha do lado que não conhecemos assim tão bem. E, sim, é entretenimento.

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12
Jul20

Não foi o Instagram que me ensinou.

Maria das Palavras

Tenho ideia que as pessoas se esquecem que não aprenderam tudo nas redes sociais, não querendo eu desfazer do valor da partilha útil. Da mesma forma que a mesquinhez da vizinha virtual, já existia às janelas, da mesma forma que antes de serem as Youtubers a esgotar vestidos, o faziam as atrizes de Hollywood, também algumas das maiores tendências desta era nasceram muito antes.

 

Hakuna Matata - Suricate - Pixabay

 

O conceito de Mindfulness por exemplo, foi a Disney que me ensinou. Mais propriamente um porco, acompanhado de um suricate e um leão que comia insetos. Hakuna Matata, diziam eles. Que era preciso viver no momento. Como todos os conselhos dados (por isso não vendidos) têm de ser levados com sensatez. Esquecer os problemas para sobreviver, como diz a canção, faz-se se de facto já não há nada que possamos fazer senão remoer neles e dar cabo da possibilidade de desfrutar do presente. Até pode ser um life coach a lembrar-me disso no Instagram, mas essa lição ouvi-a repetida e cantei-a mil vezes ainda antes dos 10 aninhos. Hakuna Matata. Atira o passado para trás das costas.

 

E a #gratidão? Apreciar as pequenas coisas diariamente para nos sentirmos bem. Foi um livro de auto-ajuda? Não. Foi a Maria, a freira cantora que foi tomar conta dos 7 miúdos Von Trapp que me deu uma canção favorita e um mote. Bigodes de gato, invernos que derretem para primaveras, tudo detalhes que devemos apreciar para não ficarmos a marinar nas grandes e inevitáveis desgraças com que nos cruzamos na vida. O Gustavo Santos austríaco, aquela menina. 

 

E sei que desta influencia não sofri (ainda, será que algum dia?), mas também não foi o PT Paulo Teixeira que me tentou cativar para o exercício através de um ecrã pela primeira vez. O meu primeiro PT foi o Gualter, na Rua Sésamo, acompanhado dos seus amiguinhos. Claro, que hoje não poderia dar essas aulas num live, porque as fazia em pelo e seria censurado!

 

 

Nem foram as 7665 publicações de nutricionistas (reais e pseudo) os primeiros a alertar-me para fazer uma alimentação rica em nutrientes, através da ingestão de legumes. Este foi o primeiro rapazinho a debitar-me o seu What I eat in a day , com algumas influências vegan. Tinha uma poupa (para rimar com sopa?) e era um visionário quanto à pandemia: diz que nem se importa de não poder sair de casa porque gosta de sopa, do seu paladar, ao almoço e ao jantar...

 

 

Como estas, muitas outras lições que o Instagram até me vai recordando, mas foi muito antes que me entraram na cabeça. E de todas elas, só há uma que me esforço muito para não interiorizar e cantar a plenos pulmões...(esperem pelo refrão, se não conhecem)

 

 

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06
Jul20

Quem é vivo sempre (re)aparece

Maria das Palavras

Quando se fechou tudo em casa (e eu também) ficámos só connosco. Foi estranho também para mim, que sou a pessoa mais inerte que um dia conhecerão e que se dá muito bem consigo própria, que de repente o lazer, o trabalho, o convívio e todas as conversas se desenrolassem nas mesmas paredes. Não estranho "mau", estranho "diferente". Nessa altura arranjámos tudo e um par de botas para fazer. Não cheguei a fazer pão, mas fiz bolos, videochamadas, voltei a escrever mais no blog, vi muitas séries inteiras e filmes que estavam na calha. 

Depois a mudança passou a ser a nova rotina. Deixei de sentir necessidade de preencher o tempo todo com novidades. Já só faço o bolo que me saiu melhor (favorito da vida). Luto para encontrar uma série que me apeteça. Deixei o blog outra vez a apanhar pó (mais fácil, a partir do momento em que micro-desconfinámos e a primeira pessoa que quis ver à frente foi a senhora que me faz limpeza cá em casa uma vez por semana). Já passou mais tempo sem ver algumas pessoas que gosto muito, mas as chamadas acalmaram. 

Não sei como é convosco, mas nós ainda estamos em modo isolamento (os números provam que ainda não passou, e o vírus é exatamente o mesmo desde que cá chegou). Continuo a fazer quase todas as compras online, só saímos para passeios ao ar livre (jamais para algo como comprar uma peça de roupa no shopping), só nos juntamos a família e de forma controlada, distanciada (temporalmente) e com os cuidados possíveis. Também é porque temos a família espalhada pelo país, não é tão fácil como conduzir até perto da sua porta e conversar na sacada, nem queremos por o vírus no intercidades sem pagar bilhete.  Depois a maior parte dos amigos está em Lisboa e não nos parece sensato ir até lá buscar bichinho novo, quando o cá de cima ainda está a dar trabalho. E alguns familiares são tão grupo de risco, que se for preciso, eles é que infetam o Covid com as maleitas que já têm e depois é um problema. 


Então o que sobra?
O essencial.

Tenho lido muito. Tenho lido livros fantásticos e apetece-me partilhar convosco. Já ultrapassei a meta anual desenhada pré-covid e acho que a vou dobrar.  Já que o que me faz mais falta é viajar, experimentar, provar sem limites nem cuidados, vivo isso através das personagens que acompanho. Estou sobretudo comigo e com o Moço. Às vezes entendo-me melhor comigo, outras vezes com ele. No outro dia começámos a ver White Lines e quase me senti emocionada ao ver Ibiza, pensar "estivemos ali" e não saber quando voltarei a estar num sítio novo, dos que depois revejo nos filmes.

Já comi carbonara umas 50 vezes - sem exagero. Tem sido a minha comida de conforto. Feita peço Moço - com ovo, sem natas. Parmesão ralado, tudo no ponto. Acho que hoje vou pedir-lhe outra vez. 

Tenho trabalhado imenso, mas estou de bem com isso. Faço-o com responsabilidade e leveza ao mesmo tempo. Terei encontrado um ponto de equilíbrio para a vida pessoal e profissional? Acho que ainda não.  Sou muito focada e esqueço-me de tudo enquanto trabalho, o que é bom e mau. Foi assim que no outro dia carbonizei um frango assado. Esteve 8 horas no forno. O Moço ligou-o antes de sair de casa e desligou-o quando voltou, depois do trabalho. A travessa aglutinada também foi para o lixo. Não me amolem, sei que podia ter incenciado a casa e não consigo explicar como não me deu o cheiro. Já sofri o suficiente com o facto de ter de esfregar o forno no estado em que ficou.


E novidades? Não tenho. Coisas relevantes para dizer? Também não. Contem-me vocês de vossas vidas.

Vinha só contar-vos de tudo e nada. Sentei-me e escrevi. Agora publico. 

 

 

 

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15
Mai20

O novo (a)normal

Maria das Palavras

Maria das Palavras - O novo (a)normal


É como um jogo. Tudo o que vem da rua tem lepra e não se pode tocar - até o Moço quando regressa do trabalho.

Depois passam para a zona radioactiva da casa (o Moço passa só para o chuveiro) e é ver esta menina a esfregar embalagens com lixívia, a esfregar tangerinas com sabão, com o cuidado e delicadeza com que se banha um recém nascido. O Moço esfrega-se sozinho. A contragosto.

Nunca o meu umbigo, em 34 anos de vida, ficou tão bem lavado como o plástico que envolve um queijo fresco antes de ir morar para a prateleira do nosso frigorífico.

Tenho um nojinho latente de tudo e de todos.

A vida até pode passar a ser levada com este novo normal, aos poucos e com cuidado. Até podemos um dia voltar a um normal muito semelhante ao que já conhecíamos.

Mas só descanso no dia em que voltar a deixar cair uma amêndoa no chão e aplicar a regra dos 5 segundos para a levar à boca.

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11
Mai20

Este blog não é sobre livros #26 - A Educação de Eleanor

Maria das Palavras

A educação de Eleanor - Review Maria das Palavras


O título em inglês é bem melhor e foi na versão original que o li, mas o livro terá o mesmo encanto de qualquer forma. Tinha-o comprado numa viagem, sabendo de antemão da recomendação do Book Gang (onde podem comprar a versão PT). Não desiludiu. É um livro original, enternecedor, divertido e pesado, tudo ao mesmo tempo. 

A protagonista é a caricata Eleanor, uma jovem nos seus 30, mergulhada numa solidão e numa perspetiva muito própria da vida. A sua visão do mundo tem tanto de pragmática, como de inocente e à medida que o livro avança e rimos com as suas interações sociais desajustadas, percebemos que não é tão engraçado, como preocupante.

Citação do Livro


A ideia surgiu à autora após ler uma reportagem sobre pessoas solitárias, que nem sempre são as de idade avançada. Às vezes são jovens, que entre a sexta ao sair do trabalho e o regresso na segunda de manhã, não trocam uma palavra com ninguém. 

Apesar de abordar uma temática dura, o livro é todo muito leve, e, até mesmo positivo. 
O final surpreendeu-me. 

Talvez seja a melhor leitura que fiz em 2020. 

 

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10
Mai20

MDV #18 - Passeio Higiénico Falhado

Maria das Palavras

Saí de casa. 60 dias depois botei o pé na rua. Não fiquei fascinada. Percebi que não me interessa sair sem um objetivo muito específico que é...pois, oiçam. Portanto o passeio durou pouco. Só o suficiente para eu constatar que as minhas pernas ainda funcionam em médias distâncias e para o Moço comentar que ao menos foi bom eu "esticar o pernil".

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Ouçam aqui no spotify, ou aqui no castbox (não precisam instalar nada, se não quiserem - ouvem no browser) ou clicando PLAY abaixo.


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